terça-feira, 25 de julho de 2017

Desculpe, Sr. Rui Veloso

Desculpe, Sr. Rui Veloso, mas não posso concordar consigo. Eu bem que adoro esta sua canção, acho que foi das primeiras que aprendi de fio a pavio, ainda hoje a sei de cor e salteado. Mas ela encerra uma grande, tremenda mentira e eu não posso ficar impune.

Não se ama alguém que não ouve a mesma canção.

Ama-se. Ama-se sim, Sr. Rui Veloso. Ama-se porque o amor é muito mais do que apenas isso. Se me disser que não se ama alguém que não ouve a mesma canção e não vê os mesmos filmes, não come as mesmas comidas, não aprecia as mesmas viagens, não gosta das mesmas pessoas, não tem os mesmos objetivos de vida... Admito que a relação fica com muito pouco por onde sobreviver. Mas, como filha de pais com mais de trinta anos de casamento, cujos gostos musicais não podiam ser mais diferentes, tenho em mim e à minha volta exemplos verdadeiros que demonstram a falácia que é esta frase.
O amor é muito mais que a soma (ou subtração) das partes. E quando há mais partes a somar que a subtrair, então o amor é ainda maior, encontra o seu equilíbrio entre o eu e o tu e o nós, deixa-nos ser unos sem perdemos a individualidade que é nossa e que nos permite gostar muito daquela canção que o outro não suporta nem um bocadinho, reveste o outro de respeito e aceitação pelas nossas escolhas que são tão diferentes das dele. Sim, eu acho que o meu marido gostar de correr quilómetros e quilómetros faz dele um maluquinho, mas amo-o mesmo assim. Já ele acha que eu sou masoquista ao ver continuamente 13 temporadas de Anatomia de Grey e continuar a chorar baba e ranho com aquelas personagens, mas não me chateia com isso. Nem nos chateamos quando gostamos da música que o outro não gosta.
E, sim, já fomos a concertos apenas pela companhia e não pela música. Quer eu, quer ele. Mas nunca o fizemos por uma imposição - nem nunca quisemos fazer o outro sentir-se obrigado a ir. Isso já entra na área da manipulação, mais ou menos como tentar mudar o outro, empenhar um anel para ir a um concerto que já sabemos de antemão que o outro não vai gostar sem que ele queira ir. Será que se pensarmos a música ao contrário não vamos sentir alguma solidariedade com a moça que se viu quase aprisionada tipo lebre a ser perseguida: mas por que raio é que ela tinha de gostar daquela música?! Se calhar eu também fugia...
Ainda assim, continua a ser uma das minhas músicas preferidas de sempre :) 


A Paixão (segundo Nicolau da Viola)
Rui Veloso

Tu eras aquela que eu mais queria
P'ra me dar algum conforto e companhia
Era só contigo que eu sonhava andar
P'ra todo o lado e, até quem sabe, talvez casar

Ai o que eu passei só por te amar
A saliva que eu gastei para te mudar
Mas esse teu mundo era mais forte do que eu
E nem com a força da música ele se moveu

Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
P'ra te levar ao concerto
Que havia no Rivoli

E era só a ti que eu mais queria
Ao meu lado no concerto nesse dia
Juntos no escuro de mão dada a ouvir
Aquela música maluca sempre a subir

Mas tu não ficaste nem meia hora
Não fizeste um esforço p'ra gostar e foste embora
Contigo aprendi uma grande lição
Não se ama alguém que não ouve a mesma canção

Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
P'ra te levar ao concerto
Que havia no Rivoli

Foi nesse dia que percebi
Nada mais por nós havia a fazer
A minha paixão por ti era um lume
Que não tinha mais lenha por onde arder

Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
P'ra te levar ao concerto
Que havia no Rivoli


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